Até que o fim os separe.

20:39 Bhairavi 0 Comments




Os copos quebrados no chão fizeram o caos oculto da casa finalmente aparecer. Aqueles cacos poderiam ser bem parecidos com meu coração naquele momento.
Eduardo havia levantado a bandeja com água e tudo, fazendo um enorme barulho. Cruzei meus dedos, ansiosa em conseguir segurar o choro desnecessário.O que os vizinhos pensariam, escutando os últimos segundos de vida deste relacionamento? O que eles pensariam dos gritos? Provavelmente nunca descobriria.
Eu o fitei. 
Ele retribuiu.

-
Há alguns anos, ver seus olhos pela primeira vez me fizeram corar. Fiquei um tanto perdida com aquele azul, com tanto mar no céu de seu olhar. Nos conhecemos numa festa muito ruim dada por um amigo em comum um tanto anti-social. Na época, coitado, ele estava tentando atrair mais pessoas para perto de si. Solidão nunca foi algo que ele conseguiu administrar.
A bebida estava um tanto morna, a música era um tum-tum irritante e constante e haviam poucas pessoas interessadas em animar tudo. Mas, ali, na cobertura de um prédio velho, com um drink que virou água no copo, suada pelo verão de São Paulo, maquiagem derretendo e franja oleosa na testa, exatamente ali eu o vi pela primeira vez. Ele não era o mais bonito da festa, mas era o mais animado. Sorria para todos (e todas), ria alto de suas próprias piadas. Cinco minutos ao seu lado e tudo ficou mais interessante. 
Quem ele era? E seu nome?
Na época, estudante de Engenharia Civil, um tanto adepto a academia, morando com os pais, 22 anos, Eduardo.
Edu.
Certa vez ele me disse que, naquele dia, ele ficou louco para puxar conversa. Ele sempre amou ruivas e eu era a própria. Naturalmente ruiva, estava com os olhos meio irritados pela lente. Ambos se gostaram. 
Eu me aproximei e, sem me conhecer, fui recebida com um sorriso lindo.
-

- Eduardo, por que diabos você derrubou isto?! - Esbravejei, desviando o olhar.
- Não adianta mudar de assunto, Maria, não adianta!
- Que merda de assunto, seu louco?! - as vozes já estavam mais altas do que eu gostaria.
- Não consigo mais olhar na tua cara!

Como isto doeu.

-
Nos encontramos todos os dias depois daquela festa. Conversávamos sobre tudo. Ficamos amigos como nunca antes. Descobrimos que estávamos na mesma faculdade. Eu cursava Arquitetura e ele, Engenharia Civil. Mais do que bandas, comidas e sonhos em comum, passamos também a brincar a respeito de sociedades: eu desenhava um projeto, ele cuidaria da segunda parte. Juntos, em sincronia, conquistaríamos o mundo dos negócios.
E as brincadeiras ficaram um pouco sérias. Principalmente quando demos o primeiro beijo, logo após um almoço péssimo no restaurante da faculdade.
Foi o melhor beijo do mundo.
-

Eu acreditei. Claro. Ele já vinha demonstrando isto há tempos. Não era preciso dizer muito para perceber que ele não queria mais nada. 
Mas... isto não me magoava. Aliás, trazia um alívio. Sentia pena dele talvez me amar muito e me perturbar se eu terminasse tudo, desfizesse todo este erro que foi casar. Minha família ficaria enlouquecida com um divórcio.

-
- Ana? - ele perguntou me abraçando forte, ainda um tanto ofegante.
- Uhummm?

Os lençóis bagunçados e um cheiro de perfumes misturados pairavam no ar. Fazer amor com ele era sempre tão mágico e natural... Eu até me esquecia de minha barriguinha, de meus seios pequenos e celulites. Esquecia que era uma garota normal e me sentia especial. Isto não tinha preço.
Ele sempre me abraçava e me beijava com tanta ternura... Era perceptível nossa química.

- Não é a hora mais convencional, mas... 
-Mas...? 
-Você aceita se casar comigo?
-

-Você foi um erro. Talvez o maior de minha vida. - Eu disse, enfim.

Ele me encarou. Não vi nenhum tipo de emoção. 

- Eu não errei por te escolher. - Ele vacilou.
- Eu errei. Nós erramos. Estamos errados. Não adianta.

-
As lágrimas já escorriam pelo meu rosto. Agradeci aos céus pela maquiagem ser a prova d'água. Ele e nossas famílias também estavam chorando. Que dia lindo! 
Era minha vez de fazer os votos.

- Ana Maria de Carvalho, você aceita Eduardo Oliveira Paes como seu legítimo esposo, para amar e respeitar...

- No que estamos errando, Ana Maria? - Ele disse com a voz mais baixa.
- Em tudo. Eu não te amo mais.

Ele baixou a cabeça e suspirou. 

- Nem eu. -disse por fim.

Eu ri, irônica. Era estranho, mas estava me sentindo feliz, triste, decepcionada, arrasada. Estava com o coração tão partido, tão quebrado pelos inúmeros baques, pelas grosserias, pelo desprezo e, por fim, pela traição, que acabei virando uma pedra. Desejei até - que Deus me perdoe- ficar viúva. 
Não, eu não precisava disto. Bastava seguirmos caminhos separados oficialmente. Nossas linhas se romperam há muitos anos.

- Estou cansada de tudo, Eduardo, tenho vergonha de você. Você é patético.


-... Na alegria e na tristeza

- Não seja ridícula. Você é só mais uma arquitetazinha de quinta categoria que sequer consegue uma merda de um projeto para fazer. Estou anos-luz na sua frente, meu bem.
- Não precisa me lembrar disso. Você me fez infeliz todos estes anos. Só restou cacos de quem eu fui.
- Por que você quis. Não me responsabilize por suas escolhas.
- Você foi minha escolha. A pior que eu fiz.

-... Na saúde e na doença

Ele começou a rir, provavelmente nervoso, ou com sinceridade. Bom, nunca saberei. Mas riu. E isto me ofendeu. 
Marchei até o banheiro, peguei minhas caixas de remédios (anti depressivos de todas as espécies, remédios de pressão e para gastrite). Voltando a sala ele já estava sentado em frente à T.V, assistindo algum programa idiota que mostra centenas de putas seminuas.
Joguei as caixas de remédio nele, uma a uma, com toda minha força, gritando:

-Minha escolha, Eduardo?! Minha?! Me diz então, senhor maravilhoso, quando eu escolhi ser deprimida! Quando eu escolhi ser doente por viver uma vida infeliz e sem sentido! Você quem fez isto comigo. Você quem fez todas as vezes que você me pisou, humilhou e desprezou para, em seguida, fazer de conta que se importava! 
- PARA DE JOGAR ESTA MERDA!
- VOCÊ ME DEU ESPERANÇA! -Gritei com toda minha força. - Esta foi minha doença.

-... Na riqueza e pobreza...

- Minha carreira acabou - eu comecei a dizer chorando compulsivamente - quando eu passei a tomar 5 comprimidos diferentes de remédio por dia. Minha vida foi para o ralo.
- Pare, pelo amor, de me culpar. VOCÊ quem quis insistir em tudo. Eu deixei bem óbvio para você, Ana, que não queria mais nada. Principalmente quando a Helena apareceu. Diga a verdade: você ficou porque queria ser sustentada.
- EU ODEIO VOCÊ.
- E EU TE AMEI! FIZ TUDO! DE TUDO! - Ele enfim chorou. - Helena era uma merda de uma garota fácil. Você quem se afastou. Não disse nada, deixou de ser minha amiga. Me criticava o tempo todo, deixou de ser quem você era. Tantas vezes eu me perguntei quem era a mulher que dormia comigo... eu não sabia mais.
- Nem eu. Eu também fiz de tudo. Você nunca abriu mão do seu passado e eu nunca consegui lidar com isto.
- Aquelas garotas... Guardar cartas não me ligam a elas.
- Assim como seu dinheiro não me liga a você.

-... Todos os dias de sua vida

- Não quero mais. -Disse por fim.
- É. Não dá mais. - Ele concordou.
- Siga seu caminho, deixe-me viver o meu.
- É isto mesmo, Ana? É mesmo o fim?

-... Até que a morte os separe?
Eu sorri e, com os lábios cheios de amor disse:
- Sim.

- Sim.

a.G.

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