Vergonha

22:05 Bhairavi 0 Comments



Sinto vergonha.
Não consigo mais te escrever nada.
Todas nossas conversas, pesadas.
Quando nos esquecemos de nós
Sorrimos o bastante para esquecermos.
É estranho estar contigo.
Tão familiar e aconchegante
E ao mesmo tempo tão brutal e frio.
Não entendo do mundo,
Apenas tento entender nosso universo.
Estamos tão distantes da paz
Ou o que ela é e representa
Que não conseguimos fazer o caminho inverso:
Mesmo no calor de nossos beijos há tantas farpas
Que a boca começa a gotejar.
Sinto vergonha.
Pois brigamos sem sequer saber a razão,
Não entendemos e desistimos de fingir,
Não conseguimos um acordo, um consenso
E eu me cansei de encontrar em meus ossos
As razões para tuas tristezas e mágoas,
Tuas raivas e más ações.
O que me lembro é que para ti entreguei tudo
Meu tempo, minhas razões, minhas amizades,
Meus perfumes, minhas náuseas, meu capital,
Meus juízos, estudos e sonhos, meu final.
O que me lembro é que na tarde que te disse
Amar além da vida, mesmo com todas as perdas,
E à noite, quando você chorava os males de tua parentela,
Eu o acolhi em meu peito e mais uma vez dei o que não tinha,
Ali, naquela noite, comigo lutando contra teu silêncio,
Imaginando piadas bobas e palavras para te alegrar e encorajar,
Na tua mente e olhos estavam outra.
Foto a foto, página a página. Escrito por escrito.
De outra.
Outra.
Olhos que não eram meus.
Lábios talvez com as mesmas cores que uso,
Mas não eram meus.
Rosto, corpo, desejo.
Não era eu, era outra.
E eu dizia te amar enquanto você
Fez juízo na pessoa errada.
Eu não era a causa.
Enquanto planejávamos um encontro,
Enquanto eu, tola, imaginava o dia,
Você a desejava e imaginava como seria tê-la,
Como seria ter uma mulher mais bonita, interessante.
Eu acreditei que sua frieza era por tristeza,
Enganei-me.
Disseste-me que ela é linda.
Eu não suporto carregar outro punhal.
Sinto vergonha talvez de muitas coisas,
Mas tenho a certeza que para ti
Dei meu tudo e o meu melhor.
E mesmo assim...
Admito que estou machucada,
Que não conseguirei confiar novamente,
Já vi este quadro antes
E o analisei, detalhe a detalhe, não me curei.
Desta dor, deste rancor, desta humilhação, deste ciúme
Sinto vergonha.




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