Iniciada

11:35 Bhairavi 0 Comments





A primeira vez que vi o zodíaco fora num livro esquecido em minha casa. Era uma colorida edição "Manual do Escoteiro Mirim", herança de meu pai.
Seja por influência ou não, queria ser escoteira porque eu amava andar entre os pinheiros da serra, escolhendo pequenas flores secas no chão, espalhando folhas, sonhando com neblinas que, densas, pudessem me fazer perder no mágico mundo que criava.
Eu me sentia como bruxa.
O reconhecimento do frio, da paisagem cinzenta e dos mistérios das brumas me remetiam à algo íntimo, uma lembrança distante. Mas como? Tinha plena consciência de meus sete anos de idade. E eu sabia que não era simplesmente minha fértil imaginação. Eu realmente conhecia lugares daquela maneira, conhecia caminhos frios e lamacentos, conhecia a neve, o gelo cortante do inverno. Mas como poderia conhecer se nunca os vi? Frequentemente tinha deja vu. E não entendia o que acontecia. Não compreendia meu impulso solene de adentrar na mata e ver o céu, dançar em volta de uma fogueira, fazer unguentos de plantas. Como eu poderia conhecer tanta coisa, sentir falta de tanta coisa? Era difícil compreender.
Um dia, para uma professora, confessei minha angústia. Meus pais diziam, contei, que aquilo era de memórias de quando era ainda menor, mas eu sentia que isso era muito superficial. Queria uma resposta além da óbvia, em minha doce infância. Ela então me disse que eram lembranças de outras vidas e tudo fez completo sentido em minha cabeça. Eu sabia! Não era tão nova quanto parecia! Eu vivi outras vidas! Eu conheço lugares assim porque estive neles muito antes de sonhar em ter este novo corpo, esta nova personalidade.
Mantive aquilo em segredo. Algo me dizia que era um pecado grave e mortal imaginar-me reencarnando. Não teríamos somente dois destinos após a morte? Como então poderíamos seguir um caminho do meio? Seria este o caminho do meio?
E, escondida em meu quarto, sobre o beliche que chamava de lar, o Manual de meu pai abriu-se para mim. O zodíaco. Como aquilo poderia fazer tanto sentido! E, olhe que engraçado...meu pai era do signo de "virgem" cuja imagem era de uma mulher bela e doce com ramos de trigo nas mãos. Minha mãe era um.... aquário? E eu? Eu era uma balança. Libra. Aquela imagem fixou de uma forma inimaginável em minha mente. Seria esse o motivo de eu amar tanto artes, poesias e paz? O motivo de balanças antigas me inspirarem tantos sonhos? Era como se eu reconhecesse um chamado ancestral e corri para contar tudo à minha mãe.
Aquilo, porém, era mau. O zodíaco era mentiroso, uma ferramenta do demônio para enganar o homem. E me mostraram na bíblia versículos que diziam que o homem não poderia olhar para os astros para prever o futuro. Que eu não deveria ler aquelas páginas do Manual, que deveria esquecer Libra, Virgem e Aquário. Que não poderia tentar entender porque minha irmã, Peixes, nada tinha a ver com Peixes. Talvez minha irmã tenha sido o que me aquietou. Foi mais fácil esquecer dos signos que se apresentavam para mim docemente, pois ali estava a prova viva que eles eram mentirosos. Posteriormente descobri que ela era Ariana, não psciana.
Mas o sentimento das brumas a me chamarem persistiu. A magia, os ungüentos e remédios, as poções que eram ridicularizadas na televisão. E os Druidas? Eu parecia saber suas histórias horríveis e sangrentas com o mesmo desprezo de um passado desconhecido. Ou com o mesmo fascínio.
Esqueci o zodíaco, guardei em meu peito Avalon, druidas e outros amores.
Muitos anos depois um antigo namorado disse que tínhamos o mesmo signo solar. Não entendi absolutamente nada e o ignorei. Ele falou que meu ascendente era o paraíso astral do dele, leão, e minha lua o inferno astral da dele, câncer. Que pena, pensei, pois queria terminar. Mas nunca mais esqueci que meu ascendente era em Sagitário, signo que me parecia louco pelo símbolo homem-Cavalo. E esqueci do zodíaco, com medo de demônios, infernos e igrejas.
Anos depois, num infernal trânsito de Urano,  um aquariano perguntou meu signo. Há quanto tempo não me perguntavam isso? Pareciam milênios.
Eu ri e disse não acreditar mas...era libriana. Como a mãe dele, ele disse e acrescentou: "Dizem que esses signos se dão bem".
Seria esse o motivo de eu gostar tanto de minha mãe? E minha amiga/irmã e seu namorado? E tantas outras pessoas igualmente aquarianas?
Fui averiguar e descobri que eu não era somente meu sol. Era meu ascendente, era meu mercúrio, lua, júpiter e vênus.
O oculto se apresentou para mim de forma natural e poucos meses depois eu sabia o que eram aspectos, polaridades, qualidades, casas...mistérios. E nunca mais parei de mergulhar no mundo restrito e esotérico da Astrologia.
Pensando bem, minha iniciação não é recente. Ela começou lá atrás, há muito tempo, quando minhas memórias de outras vidas eram frescas o bastante para sussurrarem que eu era guiada por estrelas em densas florestas, conhecia todas as plantas e era senhora de mim.






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