Não foi possível completar a sua chamada.
O dia amanheceu nublado, como
de costume. Não que isto me incomode, mas eu costumava ficar feliz com o cheiro
da chuva ao teu lado. Aliás, este é seu defeito: você faz as pessoas admirarem
a vida.
Eu era uma daquelas garotas
doidas, que bebia um bocado, ia mal na faculdade e na vida. Escolhi meu curso
por escolher, não me incomodava com o dinheiro que meus pais desperdiçavam em
quem eu era. Só pensava em ganhar dinheiro sem fazer nada, ter carro,
apartamento no Ibirapuera, roupas de marca, noitadas em baladas VIPs. O legal
seria mostrar a todas minhas amigas que eu era tão boa quanto elas. Mentira. Eu
queria ser melhor que todas.
Não sei por que motivo você se
aproximou. Ou melhor, teve coragem. Eu, popular e cercada de amigos, torcia a
cara para nerds como você.
Nas muitas aulas que nos
encontrávamos sem querer na faculdade sempre te via no canto da parede, cabelo
despenteado, calça jeans, all star ou Oxford, camisas polo de gosto duvidoso,
combinações estranhas com óculos grandes e grossos. E o cabelo? Um ninho de
pássaro. Mais tarde descobri que era de andorinhas.
Fazíamos arquitetura.
Um dia, fui escondido a uma
aula de História da Arte. O tema do dia era o Barroco. Estava no fundo da sala,
escondida, usando uma boina, tirando férias das lentes de contato. Até minhas
roupas estavam diferentes. Não queria ser reconhecida.
Mas, eu vi que do canto da
sala, alguém me olhava sem vergonha alguma. Acho que foi a primeira vez que
realmente te vi. Você sorriu, sentou do meu lado. Conversamos. Fiz de conta até mesmo que não era eu. Você sabia o
tempo todo.
Atrapalhamos a aula, saímos
para comer um salgado na cantina. Você disse: “Sempre soube que você era muito
além do que demonstra ser”.
Eu o fitei, chocada.
Passamos a conversar nas aulas
de arquitetura.
De repente, eu parei de usar
roupas de marca (eu sequer podia pagar por elas com facilidade), parei de
pintar meu cabelo de loiro, parei de usar lentes. Minhas amigas passaram a se
afastar, achavam-me idiota. Desconfio que elas sempre acharam. Comecei a não
ter medo de ser eu mesma e meus desenhos passaram a ser incríveis. A única
coisa que fazíamos era conversar.
Até o dia que pintei meu
cabelo de castanho chocolate, coloquei um chapéu, uma legging com um Oxford e
um camisão xadrez. Com os óculos no rosto fui ao cinema te encontrar. E me
apaixonar.
Passei a ter novos amigos e,
de repente, muita coisa mudou.
Não acho que você me mudou,
mas no momento que eu estava perdida, procurando minha identidade, você me
mostrou um caminho que eu não via antes. Namoramos muitos anos. Talvez seu
defeito venha ter sido me ensinar a amar a vida.
Até a chuva que eu odiava
passei a amar.
Espero ser melhor que a garota
do seu lado. Pois é, algumas coisas não mudaram.
Caminho sozinha na cidade que
um dia foi nossa, sob a neblina que tanto amávamos, calçando roupas que eu
mesma comprei outro dia, quando tentava te esquecer. Neste mesmo dia eu te liguei, de um número que comprei só para ouvir sua voz ao invés da caixa postal.
Eu tento, querido, todos os dias.
Quer saber?
Não dá.


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