Sobre gaiolas e asas cortadas
Sorria, não fale, não pense, não
sinta. Não ouse criar, não ouse ser verdadeira, não ouse ousar, seja como eu
sou, quadrado, deformado pela máquina de se esvaziar de personalidade. Somos
todos iguais neste lugar. Somos todos iguais.
Todos demonstramos as mesmas
revoltas inúteis e preocupações descabidas. Vivemos nossa vida nesta cadeia,
mas não ouse falar sobre isto. Não é uma cadeia se você ama este lugar e,
acredite-me, você tem que amar.
Não há desculpas, daqui você
retira seu cheiro. Não há desculpas se, daqui, você mergulha nesta poça imunda
e infinita de desespero. Aliás, quantas vezes teremos que repetir que você é
anormal? Quantas vezes teremos que te humilhar, lembrando-te que teus sonhos
são patéticos?
Pessoa tola... Não sabe nada
desta vida nefasta. Sua doença é sua rebelião, sua insistência em ter o
arco-íris no coração, este brilho irritante no olhar, esta vontade louca e
insana de viver e sonhar.
Sim, você tem estes direitos. Mas
o que está no livro a gente não escreve. Quem precisa das palavras? Apenas
você. Contando que sejamos sustentados, seu mundo de nada vale, seu corpo é pó
e sua arte é um ridículo espetáculo.
Você é tão bela, pequena
andorinha. Deixe-me enjaula-la nesta gaiola. Viva aqui e cante teu lamento de
liberdade e, quando tuas asas estiverem cortadas e tuas cordas vocais não mais
suportarem o vazio de teu coração, estarás enfim livre para voar teu caminho de
aquarela.


Menina andorinha: não pare nunca de voar...de sentir..e principalmente de se expressar. :)
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