Como você um dia amou alguém

20:52 Bhairavi 0 Comments


Eu o vi tão distante
Quando seu abraço
Apertou-me contra
Seu corpo quente,
Nu.
Ali, tão próximos
Percebi que dentro
De seu secreto pensar
Eu jamais ocuparei
Imagens, razões.
Sou como uma brisa
Que veio e o alentou,
Foi tempestade
Que logo silenciou.
E você me percebe
Tão muda e vazia
A olhar para paredes
Como obras de arte,
Tão distraída ao dizer
Não.
Tão inconsequente
Ao te afastar com sorriso
Que sem entender
Crava o afiado punhal
Das dúvidas, incertezas.
E sem querer eu olho
Para o tempo que não passa
Esqueço-me do agora,
Sonhando com filhos
Que nunca conheceremos
Pois, meu bem, este vazio
Sugou tudo que tínhamos.
Talvez nosso início
Tão tumultuado e intenso,
Incerto e impreciso
Tenha atestado o fim
Que enfim não queremos.
As horas não voltam
Mas a memória fica
E com ela toda a dor
Que perene permeia
Cada veia e artéria
Como veneno incólume
Seus olhos se perdem
Em meu rosto inexpressivo
E você se pergunta
Em qual momento
A pessoa por quem você
Tão louca e decididamente
Se apaixonou
Adormeceu.
Eu o vi tão distante
Quando teus lábios
Tocaram-me hesitantes,
Talvez distraídos.
E me vejo tão
Desinteressante
Que desanimo.
Pois não sou sol,
Sou lua, filha da noite.
Há tanto que o tempo
Roubou-me
Que muitas vezes
Perco-me ao tentar
Reencontrar meus pedaços
Destroçados pelo caminho.
E é tão difícil a convivência
Na pele que habito
Que me questiono
Se um dia,
Um dia sequer,
Eu poderia merecer
Toda a alegria
Que teu amor
Concedeu.
Busco referências
Pois já não as tenho.
Há tanta coisa
A me afogar
Que de brisa
Tornei-me mar.
Onde está aquela
Poesia pura e pueril,
Aquele brilho inocente,
A devoção na verdade
Destes sentimentos
Crus e vermelhos?
Encontro-me
Mas somente
No que não perdi
Para o tempo,
Para a vida,
Para mim.
E você nega
Vira-se para não ver
Passado, pretéritos,
Pretextos,
Abandona os livros,
Os textos,
As fotos e a curiosidade
Pois já basta
Todas as horas de palavras
Tão esfomeadas, afoitas
Quando entregam
Na bandeja de prata
Minha cabeça,
Meu coração.
Quero entender
Coisas que não
Podem ser ditas
Ou faladas
Sequer lembradas.
Na foto da parede
Teu amor era tão
Tenro e gentil,
Seus olhos se fecharam
Em profunda devoção
Se acalmaram.
Não há como voltar?
Não posso eu ser A
Escolhida?
Toda a cidade em silêncio
Pois com todo fervor
E o mais secreto
De meu ser
Eu te amo com a vida
E a falta dela.
Tenho tanto medo
Suas palavras às vezes ferem
Eu não quero conviver
Com tua perda.
Mas como sobreviver
Se sou perda?
E então jogo-me
Nas areias da ampulheta
Sonho acordada,
Encontro soluções
Inexistentes.
Entrego meu corpo
E rasgo minha alma
Mas eu não te encontro.
Tento te tocar,
Assim como você
A tentar me alcançar,
Mas nossos dedos
Apenas se encontram,
Ponta a ponta,
Há algum fio que perdemos.
Você antes me falava
Sobre certezas
E que eu seria a sua.
Você então me diz
Que no futuro ...
O que há?
Talvez não negue
Minha ausência
Pois isto sangraria
E ainda há uma centelha,
Uma esperança.
Como meu amor
Pode te alcançar?
Estou desesperada
Para encontrar
Este elo perdido
Entre nós dois,
Pois você é
Como terra suave
Enegrecida pela vida,
Cheia dela,
Exalando
Teu perfume inebriante
Na qual quero
Ardentemente
Fincar minhas raízes;
Você é meu sol
De outono
Que suave e forte
Colore as ruas,
O caminho
Faz-me desejar viver
Intensamente.
Você já é parte de mim.
Não quero o desespero
De não ouvir tua voz
A me chamar de amor.
Por favor me diz
Onde foi que nos perdemos.
Invejo a todas
Que tuas mãos tocaram
Eu o quero só para mim.
Mas o que sou
Estou reconquistando.
Eu o vi tão distante
Com seus olhos fechados
Boca a morder a amada,
Beijá-la,
Que me perguntei
Se um dia você
Desejará minha presença
Como um dia
Você amou alguém.
E nisso
Estou tão distante...

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