Latrocínio

14:58 Bhairavi 0 Comments



Não gostaria de admitir isto, mas você me causa algo ruim.
Sinto um engasgo, um esmagamento, como se tudo que eu amo e acredito fossem doces mentiras.
Seus olhos, seus óculos, seu sorriso. Era você.
Entraram, cada uma, pelo caminho com um convite doce, mãos fortes que com delicadeza puxaram seus corpos de encontro a tudo que amo. Caíram num mar de deleite silencioso, nas minhas costas, nenhuma música ou zelo foram freios, nenhum sabor se fez diferença.
Sonhei que seus corpos se amontoavam em meu coração, apodrecendo como doença, como a melancolia que ondula em meu corpo, sob a pele, em meus ossos e sangue.
Não gosto de admitir, eu não te esqueço.
Todos os caminhos que um dia trilhei me levam à você, à todo o mundo que desconheço, à tudo que não me pertence;  isto lateja e dói. Mata-me para que eu renasça cada vez mais seca, cada vez mais silenciosa.
Eu te matei diversas vezes. Por horas a fio eu torturei, arrancando cada uma de suas memórias, guardando-as em mim como sendo minhas. Um latrocínio triplamente qualificado, pois minha crueldade é desejar um mundo que nunca possuí; você saia livre e eu acorrentada. 
Não é meu o que está em seu corpo, sua saliva e poros. É seu, e isto me consome em todos os momentos de silêncio.

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