Antítese
Quando eu o vejo noto sempre seus olhos. Eles sempre me pareceram tão misteriosos, capazes de guardar mundos grandes e singelos. Observo suas sobrancelhas, às vezes rebelde como seus cachos, e mais uma vez me perco em todas as cores que sua compenetração exala.
Creio que não
o vejo: eu busco sua alma. Tento encontrar-te em cada momento meu, pensando em
suas reações e palavras. Imagino sua respiração em meus ouvidos, teus braços a
me abraçar enquanto caminhamos nas ruas e avenidas, sozinhos em meio multidões,
prédios vazios, vidros estilhaçados. Talvez ninguém note nossa passagem sempre
silenciosa, absortos em nosso universo particular construído com medos,
esperanças, amor em todas as suas variações e subtons.
E mais uma vez
temos nosso olhar em algo, talvez distante, talvez presente, talvez irreal: nós
juntos em um lar, com palavras tenras e conquistas nos ombros. Vitoriosos numa
cidade que nos rejeitou, juntos sem sermos condenados; juntos apenas por amar.
Focados nos
sorrisos, na segurança que estes braços trazem, no conforto irremediável do
calor de nossos corpos; nas deliciosas conversas sobre artes, céus, filosofias
e revoluções. De mãos dadas frente o destino irremediável, damos nossos passos
desajeitados rumo ao futuro que tanto almejamos. Mas o futuro não existe.
Tento
desvendar tua alma ao ponto de querer tocar em coisas que vão além de seus
braços e sorrisos. É que por amar tanto tudo o que o compõe, percebo-me imatura
ao desejar algo que vai além de te ter ao meu lado: possuir-te de corpo e alma,
presente, passado e futuro.
Não sou deusa,
não sou mãe: sou como lua serena que levanta tempestades e marés, águas
salgadas, envenenadas, águas de alívio para um dia cheio. E nessas águas me
perdi na contramão tantas vezes que me encontrei presente em seus passados e
assim guardei mágoas em nosso futuro despremeditado.
Pensei tantas
vezes, quando via seu sorriso tão sedutor e doce, que deveria me desculpar por
tantas coisas, pois tenho a consciência de meus erros e através de sequências
de agitadas madrugadas tive uma epifania: conhecer-se não é o bastante para se
transformar. Por isso não te escrevo para me desculpar, não desta vez.
Eu o vejo e o
desejo. Eu o vejo e o acolho. Eu o vejo e o coloco no mais profundo de minhas
entranhas. Tenho o dom da profundidade e sua maldição. Penetro em lugares que
poucos ousam ou conseguem encontrar. Descubro elos, ocultos cultos, encontro
diamantes e também todo o lamaçal negro de nossa essência.
Não sou uma
pessoa otimista em relação a humanidade. Nunca fui. Embora você com seus
idealismos tão sublimes consiga simplificar o ser humano de forma que pareça
possível mundos melhores, suas águas aquarianas airadas, suspensas em idéias sublimemente
carnais, faça-me ter deslumbres de um sorriso e uma tímida certeza de tempos
melhores. Então vejo diante de mim novos rios, lagoas, lagos, pântanos e
bosques: mares. E as águas do conhecimento são irresistíveis. Basta eu provar e
então mergulhar como moribunda de um afogamento, órbitas atentas, ouvidos que
guardam memórias de vidas. A garganta se fecha em muda devoção perante toda a
imensidade que um simples contingente de moléculas de oxigênio e hidrogênio
conseguem ter. Mesmo em uma poça.
Eu mergulho.
No fundo do
oceano mais belo há monstros tenebrosos. Encontramos corpos destroçados e
tesouros. Tenho nojo de me imaginar a respirar a imundície que encontro, mas
respiro a beleza e o horror igualmente, como um equilibrista sobre uma corda em
um circo. Minha busca é secreta e confesso que tantos segredos tornaram os espinhos
e pântanos familiares e amigáveis para mim. Florestas densas, névoas e animais
à espreita: sob o frio eu adentro o desconhecido nua, de encontro à todas as
tuas advertências gentis.
E fico tanto
tempo no escuro que quando eu o vejo, seja em foto ou em um beijo, seus olhos
são um misterioso universo que para eu alcançar preciso sair das escuras
profundezas para voar.
Talvez meus
progenitores estejam certos: tenho um lado doce e travesso, outro profundo e
venenoso. Como se os mesmos dentes que uso para um sorriso se tornassem um ferrão.
Devo concordar. Passo tanto tempo a analisar as trevas e lumiares do oculto que
de lá retiro pretéritos que não me servem de nada em meu presente.
Isto é sim
algo ruim, mas venenos em doses corretas curam e por isso eu não gostaria de me
desculpar. Eu gostaria de transmutar.
Permita-me
sair de meus mergulhos para com as asas de nosso amor alcançar o cosmos onde
fizeste morada. Deixe-me te entregar com meu amor o mapa do labirinto dos
mares, das almas, do profundo solo rochoso ou húmus. Ensine-me a voar e eu
poderei te ensinar a cavar dentro de ti o diamante que sempre vi.
Quando eu o
vejo noto sempre seus olhos e então busco seus lábios repuxados em um sorriso.
Sinto vontade de parar o tempo para que permaneça assim, mas os anos, as horas,
a vida em curso e percurso o tornarão o homem que quando se olhar no espelho
extrairá de seu âmago a mais pura certeza da felicidade: ela é triste, alegre,
feia e bela... mas existe.


0 comentários: